Deixem-me falar-vos da beleza.

A beleza são estes 4’43”, uma melodia visual orquestrada pelo Fábio Mestrinho, que é um mestre. Como diz aqui abaixo a minha amiga Vanda, é um privilégio. Sejamos dignos dele. E das imagens que o Fábio coreografou.

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Há uns anos, a célebre revista Fugas pediu-me um textinho sobre a minha praia, na onda daquela mania das maravilhas. Ao ver o vídeo lembrei-me dele linha a linha e, como decerto há por aí ainda uma pessoa ou duas que ainda não está farta das minhas egotrips, tomei a liberdade de abusar e de juntar aqui o meu textinho. Mas, façam favor, vejam o vídeo. E lembrem-se sempre, como está num azulejo da minha mãe, é sempre bem-vindo quem vier por bem.


Vida de praia
A Zambujeira não é a minha praia. A Zambujeira é a minha vida. Cresci aqui, entre aparições da Ti’ Maria Jacinta na mercearia dos meus pais a revelar-me, uma e outra vez, a sempre primordial revelação. “Sabes que fui eu que te fui buscar ali à praia, não sabes?”. “Estavas numa cestinha no mar e eu trouxe-te para a tua mãe, vê lá a sorte que tiveste!” E tive. Com a mãe, com o pai, com a praia e com toda esta costa de prodígios. Por causa do meu mitológico nascimento, cada mergulho na Zambujeira é um renascimento. Reconheço à praia os traços da beleza mas é no seu mar que me torno religioso. Por isso, parece-me de natural redundância que lhe chamem maravilha. E, entre cada elevação, olhos na rocha, aquela lá ao fundo, quase no ar, quase ilha, aquela que dá o equilíbrio da perfeição a todas as fotografias. É o Palheirão e, para nós, é mais que uma rocha, é uma espécie de divindade, imagem que persegue todos os caídos sob o feitiço da Zambujeira, o símbolo de toda a presença, de toda a saudade, o coração da terra.
Luís Jesus (de Angelina) Santos (de José Maria)